George Michael (1963-2016) foi o superastro da música que começou como DJ e fez todo mundo gostar de pop

Claudia Assef
Por Claudia Assef

Well it looks like the road to heaven
But it feels like the road to hell
When I knew which side my bread was buttered
I took the knife as well

Bom, parece que é a estrada pro céu
Mas sinto como se fosse pro inferno.
Quando eu soube o que era melhor pra mim
Eu assumi o controle

Este é George Michael de 1990, um superastro da música que aos 27 anos já não queria mais saber de câmeras e tinha desenvolvido um cinismo brabo com relação à mídia. Foi assim que ele justificou sua ausência no clipe de Freedom ’90, de onde foi tirada a letra citada acima, até hoje um de seus maiores sucessos. Em seu lugar, no vídeo, estrelaram as modelos Naomi Campbell, Linda Evangelista, Tatjana Patitz, Christy Turlington e Cindy Crawford, todas topando uma diária “modesta” de US$ 15 mil por dia, além dos modelos masculinos John Pearson, Mario Sorrenti, Scott Benoit, Todo Segalla e Peter Formby.

Por irônico que pareça, talvez tenha sido Freedom ’90, o clipe em que ele não aparece, o primeiro a surgir na cabeça das pessoas quando, no dia de Natal, surgiu nas redes sociais a notícia de que George Michael havia falecido, aos 53 anos, em sua casa em Goring-on-Thames, a 80 km de Londres.

George Michael e Andrew Ridgeley formaram o Wham! em 1981 depois de tocar numa banda de ska

Quem viveu os anos 80, porém, deve ter tido outras lembranças, afinal o inglês Georgios Kyriacos Panayiotou, nascido em Londres, em 25 de junho de 1963, filho de um restaurador grego com uma dançarina inglesa, havia surgido no começo daquela década com sua dupla de pop dançante Wham! ao lado do amigo de escola Andrew Ridgeley.

Michael e Andrew se juntaram em 1981 depois de uma passagem por uma banda de ska chamada The Executive. Antes disso, Michael já tinha começado a trabalhar com música atuando como DJ em clubes e escolas nas cidades de Bushey, Stanmore e Watford, cidades próximas a Londres. Dois anos mais tarde, em 83, já haviam lançado o primeiro álbum como Wham!, Fantastic, fazendo um electropop dancante, com influências do então emergente rap, pós-disco, pop romântico.

O primeiro single do Wham! foi lançado em junho de 82, Wham Rap! (Enjoy What You Do?) trazendo Michael e Andrew como dois jovens hedonistas que não queriam saber de trabalhar. “Hey everybody, take a look at me, I’ve got street credibility, I may not have a job, but I have a good time”, diz a letra de George, que no clipe já aparece com a jaqueta de couro modelo Perfecto, que virou uma de suas marcas registradas. O single foi lançado pelo selo Innervision Records, com duas versões para a músical: o Social Mix e o Unsocial Mix. Provocativo.

Wham Rap! (Enjoy What You Do?) – Wham!

Wham Rap! não chegou a estourar, mas outras músicas ajudaram a empurrar o disco de estreia do Wham! direto para o topo dos charts no Reino Unido, incluindo Young Guns e Club Tropicana, faixa perfeita para as pistas de dança da era pós-disco.

Escrita por Michael e Andrew, Club Tropicana tirava um sarro das promoções de pacotes de turismo mirando os jovens ingleses com idades entre 18 e 30 anos. O clipe mostra os dois músicos tomando sol e bebendo drinks num hotel em Ibiza, jogando charme para duas moças de biquini (na verdade, as backing vocals do Wham!, Dee C. Lee e Shirlie Holliman). Let me take you to a place where membership is a smiling face, cantava um George Michael lindo, bronzeado e de sunga branca.

Club Tropicana – Wham!

A chegada do Wham! com o carisma, a voz, o sorriso, as letras e a produção de George Michael foi tão avassaladora que um segundo (e bombástico) disco veio um ano depois. Make It Big fazia jus ao nome e já abria com a música que virou um dos hinos dos anos 80, Wake Me Up Before You Go-Go, single número 1 nos EUA e na Inglaterra. Não bastasse esse torpedo, o disco ainda tinha Freedom, com sua levada Motown, Everything She Wants, com pegada clubber, e a lenta que é até hoje a marca do poder romântico do canceriano George Michael, Careless Whispers, incluída no disco, mas creditada apenas a ele.

Cabelões 80, roupas mais maduras e muitos discos vendidos: o Wham! de Make It Big

Produzido por Michael, que se posicionou a partir deste álbum como um produtor dos mais geniais da música pop, Make It Big ajudou a vender os 25 milhões de discos que a dupla Wham! contabilizou na carreira, que durou até 1986.

Careless Whispers – George Michael

Em 1984, o Wham! emplacou o hit natalino Last Christmas, lançado pela gravadora Epic, que se tornou um de seus singles mais vendidos e regravados de todos os tempos (há versões de Crazy Frog a Ariana Grande). Toda a renda com as vendas foi doada para a ONG Ethiopian Famine. No mesmo ano, em novembro, ele participou da gravação de Do They Know It’s Christmas com o Band-Aid, projeto de Bob Geldof que reuniu astros da música pop (de David Bowie a Boy George, passando por Phil Collins, Queen, Duran Dura, Sting e Bono Vox), chegou a topo das paradas no mundo todo e reverteu todo o dinheiro arrecada para a mesma ONG africana.

As intenções e ambições musicais de George Michael ficaram claras quando, depois de terminar com a dupla Wham!, seu primeiro passo como artista solo antes mesmo de lançar seu primeiro disco foi realizar o sonho de gravar com uma de suas musas, Aretha Franklin, no início de 1987.

A música I Knew You Were Waiting (For Me) é um gospel pop com os dois vocalistas travando um dueto em que Michael, realizado, apresentava Aretha para a geração MTV. Os dois ganharam o Grammy de melhor performance de r’n’b em 1988 pela gravação.

I Knew You Were Waiting (For Me) – George Michael e Aretha Franklin

O primeiro disco solo chegou ainda em 1987, Faith. O disco ainda trazia Michael como o galã dos sonhos de mulheres do mundo todo, com sex appeal turbinado pelo single de estreia do álbum, I Want Your Sex, que trazia o cantor enrolado em lençóis de seda com a makeup artist Kathy Jeung, que era sua namorada na época.

Ouça o álbum Faith de George Michael

Mas o disco trazia muito mais que um single polêmico, que, por conta de sua letra “forte”, foi banido de alguns canais e precisou de uma versão mais suave (I Want Your Love) para tocar em algumas rádios. O álbum Faith trazia George Michael no auge da criatividade, apresentando de uma forma cool e de bom gosto o seu caminhão de referências soul, gospel e pop. No álbum Faith, além de ter tocado vários instrumentos, Michael escreveu e produziu todas as faixas, com exceção de Look at Your Hands, escrita em parceria com David Austin.

George Michael de Faith: sex bomb de jaqueta de couro, barba por fazer e brinco de cruz

O clipe de Faith abre com uma jukebox Wurlitzer tocando I Want Your Sex em vinil (referência que seria destruída anos depois, no clipe de Freedom ’90) para lentamente mostrar George Michael, de jeans justo, jaqueta de couro, barba por fazer, topete perfeitamente penteado, brinco de cruz e botas de cowboy, rebolando e tocando. Sex bomb.

Faith – George Michael

Um disco de pop perfeito, Faith vendeu um total de 25 milhões de cópias e rendeu a Michael o Grammy de álbum do ano em 1989. Mas o álbum também mostrou a ele o lado amargo de fazer tanto sucesso.

No documentário A Different Story, lançado em 2005 sobre a carreira do astro, o sucesso, ao contrário do que ele imaginava quando estava no início do Wham!, não trouxe felicidade. “Queria ter nascido com uma armadura pra me proteger das coisas que vêm com o sucesso”, dele diz no filme. Clique aqui pra assistir.

Resultado disso foi que ele disse à sua gravadora Sony que não queria participar da promoção do seu próximo álbum, Listen Without Prejudice vol. 1, da mesma forma que fez com Faith.

A capa de Listen Without Prejudice: em vez de vender sua imagem, ele deu preferência à música

Lançado em setembro de 1990, o segundo álbum solo de Michael veio sem a promoção ou imagem tão presentes do cantor. O primeiro single, Praying for Time, foi lançado com um videoclipe simples, apenas com a a letra da música (o hoje tão conhecido recurso de lyric video). A letra já falava por si só:

“And it’s hard to love/there’s so much to hate/hanging on to hope/when there is no hope to speak of/and the wounded skies above/say it’s much too late/ and maybe we should all be praying for time” (é difícil amar/tem tanto pra odiar/preso a esperança/quando não há esperança pra ser comentada/e os céus machucados lá em cima/dizem que é muito tarde/talvez nós todos deveríamos estar rezando pelo tempo).

Linda Evangelista troca ideia com GM, que esteve presente no set de Freedom ’90

O segundo single do álbum, Freedom ’90, sobre o qual já falamos acima, manteve o conceito do disco, de preservar a imagem do cantor. O clipe, com as superestrelas da moda, causou um estardalhaço. Da primeira à última cena, o vídeo virou uma objeto de culto da geração MTV, que sabia as falas de cada modelo que atuavam dublando a música no clipe.

George Michael – Freedom ’90

Como ele havia prometido, o disco não ganhou turnê mundial, mas por sorte nossa o Brasil entrou na lista dos poucos países em que Michel se apresentaria em 1991. Nesse ano, ele estrelou o Rock in Rio, numa apresentação bombástica que não deu espaço a reclamações dos metaleiros, e de quebra foi a deixa do destino para que ele conhecesse o estilista brasileiro Anselmo Feleppa, com quem manteve um romance discreto até a morte de Feleppa, em 93.

George Michael no Rock in Rio 2 (1991)

Anos depois, em diversas entrevistas, Michael falou abertamente sobre sua sexualidade. Nos anos de Wham!, ele sentia que era bissexual, porém foi só quando namorou um homem que percebeu que era de fato gay. Em 98, depois de ser pego fazendo sexo com um homem num banheiro público na Califórnia, ele se declarou gay. Mais tarde, comentou que os anos em que lutou para esconder sua sexualidade foram cruéis e que sua prisão na Califórnia tinha servido como uma saída do armário subconsciente.

Nos últimos anos, George Michael declarou que vinha tentando fazer um novo álbum, mas sofria de um bloqueio criativo. Ele se manteve discreto e até certo ponto recluso, porém, vez ou outra circularam notícias de internações (por uso descontrolado de maconha e remédios) e prisões (por dirigir drogado, bater com o carro numa loja etc).

O George Michael dos tablóides não vem ao caso aqui. Quem nos deixou neste Natal, justo nesse feriado que foi tão cantado por ele, foi um dos artistas mais influentes da música de todos os tempos. Certamente ele chegou pra ceia de Natal com cadeira reservada ao lado de Prince, David Bowie, Leonard Cohen, Sarah Jones, Rod Temperton, Maurice White e Pete Burns, ídolos que nos deixaram também neste fatídico 2016. Acho que Michael tinha razão: maybe we should all be praying for time 🙁

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