“Um encontro com o New Order no Brasil teria sido sangrento”, diz Peter Hook. Ele toca em SP nesta terça

Claudia Assef
Por Claudia Assef

Peter Hook tem um caso de amor com o Brasil. Desde sua primeira tour no país, em 1988, com o New Order, o baixista já esteve no país mais de 15 vezes e adora vir pra cá, onde, segundo ele, é sempre muito bem tratado. A recíproca é verdadeira também. Desde que “foi saído” de sua antiga banda, em 2006, o Brasil passou a ser um dos principais consumidores de seus shows solo.

Nos últimos dias, ele apresentou o show do disco Substance, com clássicos de Joy Division e New Order, no Rio de Janeiro (1) e em Porto Alegre (3). Nesta terça (6), é a vez de São Paulo prestigiar a apresentação do baixista mais polêmico do pop, juntamente com sua banda The Light, da qual seu filho, Jack Bates, faz parte.

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Não precisa de exame de DNA pra saber que Jack Bates é filho de Peter Hook

Além de ser um dos músicos com assinatura mais forte na música (suas linhas de baixo fazem parte do inconsciente coletivo de toda uma geração), “Hooky” soube muito bem trabalhar outras frentes da carreira artística. Desde 2009, se tornou autor de livros. Abriu trabalhos com o ótimo Haçienda, How Not to Run a Club, contando com tiradas ótimas a história de sucesso/fracasso do clube mais famoso que Manchester já teve.

Ele ainda lançou Unknown Pleasures: Inside Joy Division (em 2012) e, este ano, o bombástico Substance: Inside New Order, um livro cheio de bafos sobre a história da banda. Não é segredo pra ninguém que o relacionamento do baixista com sua ex-banda terminou da pior forma possível, fato que Hooky faz questão de enfatizar sempre que pode. “Um encontro entre mim e a banda? Seria muito sangrento, pra dizer o mínimo. Estamos no meio de uma batalha legal. Pense no seu pior fim de relacionamento e multiplique por 10!”, diz o baixista em entrevista exclusiva concedida ao Music Non Stop enquanto Hooky finalizava sua turnê pelos Estados Unidos. Leia, a seguir, um papo com um sessentão que sabe usar as palavras tão bem quanto manipula seu baixo.

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Music Non Stop – Entrevistei a Gillian [Gilbert], e ela disse que ainda acha estranho não ter você no palco. O que você acha do que ela disse?

Peter Hook – Nossa… isso é muito diferente do que temos na Justiça neste momento. Eles têm um processo contra mim. O que ela disse pra você soa bastante… doce, né? Mas foi decisão deles, decisão dela, me tirar da banda. Então, o comentário não tem nada a ver com o comportamento dela. Da próxima vez que você a entrevistar, pergunte: “mas você não expulsou ele da banda, você não tirou 31 anos de trabalho e se recusou a pagar o que devia?”. Pergunte essas coisas pra ela da próxima vez, por favor.

Music Non Stop – Deixa comigo. Aliás, vocês poderiam ter se encontrado no aeroporto semana passada, já que você tocou no Rio no mesmo dia (1) em que eles tocaram em São Paulo. Como teria sido esse encontro?

Peter Hook – Muito sangrento! Pra dizer o mínimo. Estamos no meio de uma batalha legal. Pense no seu pior fim de relacionamento. Agora multiplique por 10 e talvez você chegará próximo do que estamos vivendo. Estamos brigando há exatos 10 anos! Nós nos separamos em 18 de novembro de 2006, em Buenos Aires, depois de uma turnê sul-americana. Então é muito estranha possibilidade desse encontro, estarmos tão próximos depois de 10 anos. Se você tiver uma arma bem grande, me dá um alô, ok?

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Music Non Stop – Bom, vamos falar um pouco do seu lado escritor. Você pegou gosto pela coisa, né? Acabou de escrever o terceiro livro. O que você acha mais legal em escrever?

Peter Hook – É como fazer uma limpeza no cérebro. Além do mais, as três histórias são incríveis, então por que não escrevê-las? Fiquei meio chocado com o livro do Bernard [Chapter and Verse: New Order, Joy Division and Me, lançado em 2015], como ele conseguiu cagar uma história tão incrível. Mas a questão em torno dos livros que eu lancei é: infelizmente os três têm final tristes. Espero que meu quarto livro tenha um final feliz. Mas o livro sobre o New Order, por exemplo, foi bom ter escrito. Percebi que enquanto estávamos juntos fizemos muita coisa boa, de verdade. Eu nem me lembrava mais disso.

Music Non Stop – Qual é a parte mais legal de tocar com o seu filho? E a mais chata?

Peter Hook – [risos] A pior é que ele sempre acha que está com a razão, e normalmente isso é verdade. Acho que ele puxou o pai [risos]. Ele nunca aceita “não” como resposta. Ele é muito bom no que faz. Se você comparar meu filho com o palhaço que toca no New Order [Tom Chapman], que toca mal pra caramba, é uma piada. Claro que a gente tem nossos desentendimentos. Mas ele é meu filho, minha família. É legal porque ele ama o que eu fiz, o que eu faço. Mal posso esperar até minha filha ter idade pra se juntar a nós, como backing vocal. Aí sim vai ser um verdadeiro family affair.

Music Non Stop – Você está limpo há quanto tempo?

Peter Hook – Completei 12 anos sóbrio em 27 de novembro! Um dos problemas de ficar sóbrio, porém, foi passar a enxergar as coisas. Um amigo meu sempre me disse que a sobriedade pode cegar. E é verdade. Foi aí que enxerguei que no New Order já não tínhamos mais respeito por nós mesmos nem pelo que estávamos fazendo. Foi bem chocante finalmente enxergar isso. A maneira como o Bernard estava se comportando… enfim, estava tudo muito ruim.

Music Non Stop – Quando vocês estão em turnê, agora que você não bebe, você frequenta festas ainda ou no final do show você volta pro hotel, e o resto da banda vai pra balada?

Peter Hook – Eu gosto de ficar com eles. A mesma química que faz você escrever ótima música, normalmente é aquela mesma que faz você brigar com seus colegas. Eu e minha banda, a gente tem um equilíbrio, nos damos muito bem. Não tem aquela ansiedade de ver quem vai aparecer mais. No New Order tinha um problema enorme de ego.

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Music Non Stop – Uma vez você disse que só o fato de você ter sido amigo do Happy Mondays já seria suficiente pra te matar, já que eles usavam doses abissais de drogas. Que outras bandas também foram “más companhias”?

Peter Hook – Hahahaha, verdade! A maioria das bandas na real. Todas as bandas da Inglaterra, de 1986 até 1997, eram todas muito junkies, nós fizemos muuuuita festa. A gente fez muita coisa idiota também. Perdemos muita gente por causa daquela atitude. Perdemos gente fisicamente, perdemos mentes, tem gente que até hoje sofre pelos excessos do passado. Foi uma escola. Se tem uma coisa de que eu me arrependo é da nossa atitude com relação às drogas. Este é meu único arrependimento na vida.

Music Non Stop – O que você achou desse ideia de transformar a casa de Ian Curtis [vocalista do Joy Division que se suicidou] em museu?

Peter Hook – Conheci o menino que comprou a casa. Ele não conseguiu a permissão necessária pra transformá-la em museu. Mas foi legal ele ter comprado a casa, a intenção era boa. As pessoas amam memorabilia. Eu sou um grande colecionador de coisas. Então a ideia era legal. O Ian era um cara fantástico. Mas ao mesmo tempo acho que o que precisa ser celebrado é o trabalho dele, ele era genial. Eu amo Ian, eu amo a música dele, toco todos os dias, ele está comigo todos os dias. Qualquer projeto que celebre o que o Joy Division fez, pode contar comigo, eu vou apoiar. Mas acho que no caso do museu não era tanto assim a celebração da obra. Eu fico bem intrigado com Stephen e o Bernard, como eles podem tocar Joy Division, e usam aquela frase Joy Division Forever nos shows, sendo que eles tocam tão mal hahahaah, esta é a parte mais triste.
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Peter Hook & The Light tocam Substance de Joy Division e New Order
Terça, 6 de dezembro, 22h
Cine Joia
Praça Carlos Gomes, 82, Centro
Esgotado

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